[Crítica] – Mulher Maravilha

Em um momento de insanidade global, no qual o sofrimento é tão grande que fica fácil se submeter a inversões de valores e permanecer desconectado emocionalmente do outro, chega uma heroína para salvar o dia.

A Mulher-Maravilha fez sua primeira aparição nos quadrinhos em 1941, criada por Willian Marston (inspirado em sua própria esposa Elizabeth Marston), lutando contra o sexismo, a supremacia racial e a violência descontrolada que era vigente no período da Segunda Guerra Mundial. A sua luta não era carregada de armas mortíferas e motivada pela raiva e vingança; ela era feita por e com amor. Em outro momento dessa mesma insanidade, com  jogadores diferentes realizando os mesmos papéis de seus antepassados, nós precisávamos mais uma vez da força e coragem dessa amazona guerreira. E foi exatamente isso que a DC nos deu.

Demorou para termos um blockbuster de super-herói protagonizado por uma personagem feminina, mas a hora chegou, e cada aspecto retratado na trama foi bem pensado tanto no quesito de roteiro  quanto no que ele representa e reflete. É acompanhando a jornada de Diana Prince, que sai de uma ilha paradisíaca e ideológica para se deparar com o mundo cinzento formado pelas complexidade do “homem”, que nos defrontamos com o questionamento das idiossincrasias e padrões sociais e culturais. Na trama, Diana se locomove pela Europa para ajudar o major Steve Trevor a deter um plano terrível da parte alemã ao final da Primeira Guerra Mundial.

O casamento é feito para que duas pessoas se amem e se respeitem durante a vida toda, mas isso não acontece na maioria das vezes. Então qual é o papel dessa instituição realmente? Você é instruído a realizar ações com as quais não concorda por um superior em uma hierarquia fabricada. Você se mantém complacente? É esse tipo de reflexão que a primeira parte do filme tem como foco, além, é claro, de mostrar repetidas vezes que uma mulher não precisa (e não deve) se submeter a regras sociais criadas pelo sexo oposto.

 

Na segunda parte da trama, Diana e Trevor vão para o front da guerra, trazendo a ideia de que as coisas que lhe foram ditas impossíveis podem sim ser possíveis, que a sua motivação não deve se basear em fatores externos e mostrando o lado mais bonito e perigoso da humanidade: o livre-arbítrio. Esse conceito não só é um diferencial quando se fala de vilões em histórias de super-heróis, como é um lembrete de como nossa realidade funciona. Você pode dar ouvidos aos sussurros negativos ou agir da maneira positiva que a sua essência se manifesta; é uma questão de com o quê você se conecta. A possibilidade de fazer as duas coisas está presente em todos nós.

Mesmo possuindo toda essa bagagem conceitual de reflexão, o filme é cheio de ação, mantendo o público concentrado na trama durante suas mais de duas horas de duração. A diretora Patty Jenkins soube dosar momentos cômicos e dramáticos, criou um desenvolvimento emocional das personagens coeso e orgânico e deu ênfase para todo o trabalho técnico maravilhosamente realizado: a fotografia, o figurino, as composições de cena, os efeitos especiais. Esse é um filme que vale a pena investir em uma tela grande de cinema e óculos 3D.

Nesse momento em que as inseguranças estão tão grandes devido a uma mudança massiva de paradigmas, um filme como esse ajuda muito a entender como o mundo funciona e como você pode se posicionar dentro dele. É um filme que traz diversão com qualidade, que atinge todas as faixas etárias em diversos níveis de narrativa. Mulher-Maravilha celebra a figura da mulher e ajuda a resignificar a expressão “Bater como uma mulher” – seja no âmbito físico ou emocional – priorizando paz, justiça, tolerância e compaixão. Gal Gadot traz de maneira fantástica uma personagem que inspira e motiva. É o filme certo na hora certa.

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